0567_JAN_2013_IMSHERAZADE
FERNANDA TORRES

Conheci Fernando Zarif na década de 1980, período em que a cultura japonesa ditava as regras de elegância e modernidade, a Folha tecia loas a bandas finlandesas que ninguém conhecia e Liquid Sky, filme cultíssimo sobre uma extraterrestre new wave, dividia o mundo entre os que tinham tido a oportunidade de vê-lo e os que não. São Paulo era a única capital do país a comer sushi made in colônia local, a ostentar punks de raiz e a dialogar com o resto do planeta em pé de igualdade. O Rio era a zona rural.

Eu ainda me vestia de hippie quando Orlando, versão de Bia Lessa para a obra de Virgínia Woolf, me trouxe a São Paulo. O choque foi brutal. O Rose Bom Bom, os Titãs, aquela gente que se mirava em Sex Pistols e Clash, que almejava ser Laurie Anderson e David Byrne, um universo alienígena para uma garota de Ipanema, realidade trivial em São Paulo.

Despreparada para sobreviver em uma metrópole voltada para Berlim, Londres e Nova York, e vinda do Socialismo Moreno da falida Guanabara, encontrei no Zarif um amigo e um embaixador. Graças a ele conheci a arte conceitual, a poesia urbana, a boa música, o sexo, as drogas e o rock and roll.

Meu namorado na época, Toni Vanzolini, nos apresentou. Eram muito amigos e tinham o projeto de fazer um filme experimental sobre Tristão e Isolda. Altas ambições. Os salões do Itaim eram frequentados pela pauliceia desvairada da minha geração. Ali, cruzei com o inteligentíssimo e temido Pepe Escobar com José Resende, Jac Leirner, Arnaldo Antunes, Branco Mello, Lenora e Marcos Augusto Gonçalves. Ali, descobri Matthew Barney, Björk, Lou Reed e Debbie Harry, William Blake e Rimbaud.

Apesar da feiura do corpo redondo e da careca precoce, o Zarif bailava como Fred Astaire. Dono de um senso estético muito apurado, desenhava compulsivamente, pintava, escrevia, fazia esculturas belíssimas, dadaístas, fluxistas, lia, bebia, comia e experimentava de tudo com uma voracidade de leão. E mantinha-se antenado com a cultura de ponta sem perder o beduíno de origem. A fartura da geladeira, a beleza dos objetos da casa, os livros, as joias, a prataria, os tapetes, era tudo luxo só. Eu me sentia em visita à tenda do Sheik de Agadir cada vez que cruzava a porta de madeira do nono andar do Itaim. São Paulo é árida como o Saara, sempre foi. O calor se dá nas relações humanas, nos lares, na comida, no acolhimento. O Zara era tudo isso, mas com uma alma oriental, tribal, antiga, imemorial.

Lembro-me de um almoço que tivemos, só eu e ele, no restaurante do Emmanuel Bassoleil. A mesa era pequena, e, claro, o Zara optou pelo menu degustacion. Eram sete pratos que o turcão intercalou com um número igual de negrones e um maço inteiro de cigarros. A moderação não fazia parte do seu vocabulário.

Irônico e ácido, amigo até dizer chega, o Zara consumiu o que pode e viveu o que quis. Algumas almas não foram feitas para ser poupadas. Eu sempre alimentei a fantasia de que ele reencarnaria na pele de uma odalisca majestosa, com os cabelos longos e negros, a rebolar o ventre pelas mil e uma noites.

O Zarif foi a minha Sherazade.

… trecho do livro (págs. 152 a 159) em pdf – sem numeração nas páginas e sem páginas em branco

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